sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Primeira história - A menina e o livro


Era de tamanho médio, com capa dura e páginas bastante amareladas e nada atraentes - perto dos tantos outros graficamente bem acabados e coloridos que vira. A linguagem muito mais antiga do que a dos livros da escola, e as palavras tinham significados complicados demais para serem contextualizadas numa única frase.
Ela, era 'menina' apenas no gênero, mas não aceitava mais ser chamada assim. Estava na 'flor' da sua idade, pronta pra começar a experimentar os primeiros frutos da liberdade, pronta pra viver tudo o que havia visto nos filmes até então. Era uma adolescente comum tentado ser como todas as outras, comuns. 

Mas aquele livro não dizia isso.

Enquanto tudo ao redor a chamava para tomar escolhas impensadas, o livro dizia para ter prudência. Enquanto tudo ao redor a motivava para fazer qualquer coisa fora das regras, "só pra curtir, só pra ter alguma coisa pra contar", o livro dizia que de tudo ela deveria prestar contas. 
Enquanto todos ao redor queriam a emancipação de seus pais opressores e insensíveis, o livro dizia para honrá-los.
Enquanto 'viver' para os outros de mesma idade era sofrer por "amores eternos", o livro dizia que a vida estava num só Amor.
Enquanto muitos sofriam calados, o livro dizia que todos os sofrimentos deveriam ser apresentados e entregues, para serem cuidados.
Enquanto muitos ardiam nos prazeres, o livro dizia que o prazer maior devia ser sua leitura! E obediência.
Enquanto todos achavam que liberdade é fazer o que se quer, o livro dizia que liberdade é se limitar a fazer somente o que é certo.

Que mundo diferente! Como aceitá-lo? O que ela iria se tornar?
O livro prometia a melhor das vidas, mas exigia toda a sua vida. Tudo o que ela conhecia. Era incerto.
Enquanto o caminho lá fora já era sabido por ela, mesmo que nunca o tivesse trilhado. Era só seguir.

Num enorme jorro de pensamentos conflitados, ela pediu ajuda ao descrito 'autor' daquela obra que a estava desorientando. E ele veio. E ela se entregou.

Tudo isso aconteceu num só momento. 

Desde então, ela nunca mais largou o livro.
 E todos o conheceram. Nem todos o aceitaram. Mas ela vive, e diz que morre por ele. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário